Somos uma geração confusa: o que ser e fazer?

Este sábado fui lanchar com uma amiga de longa data, daquelas que quando reencontro acabo sempre por ter conversas muito produtivas.

Demos por nós a falar sobre como nós, mulheres com 20 e muitos e 30 e poucos, nos sentimos perdidas sobre o que devemos ser e fazer. Bem sei que estas são dúvidas existenciais de qualquer ser humano, mas penso que nós vivemos tempos especialmente confusos.

Está tudo a mudar a uma velocidade vertiginosa e ainda não nos conseguimos adaptar. É como se estivéssemos numa casa nova, mas as nossas "coisas" ainda estivessem encaixotadas, e nós não soubéssemos bem onde as colocar.

A caixa do ser e o drama da mulher moderna

Uma das "coisas" que não sabemos bem onde colocar é o nosso papel enquanto mulher moderna x-millennial. É difícil saber o que ser e, mesmo quando o sabemos, é igualmente difícil... sê-lo. 

Temos vindo a afirmar a nossa posição na esfera pessoal e profissional, mas ainda existe um longo caminho a percorrer.

Costumo dizer que sou feminista não porque gosto, mas porque tenho de o ser. Infelizmente, ainda assisto e vivo muitas situações de desigualdade de género. E se em 1911 conquistámos o direito ao voto, hoje procuramos conquistar o nosso lugar no topo das empresas, na repartição igualitária das tarefas de casa e no real direito sobre a nossa vida e o nosso corpo (sem julgamentos ou pressões sociais).

Por ainda termos tanto para conquistar (ou igualar) é que ser feminista, não é, ainda, uma opção. E é importante perceber que o feminismo não é estar contra os homens ou querer ser melhor do que eles, mas tão somente defender a igualdade de género e direitos. 

Acreditem, eu sonho com o dia em que não tenha de dizer que sou feminista, simplesmente porque isso já não é sequer uma questão.

Mas até lá, a confusão (e a luta) subsiste.

A caixa do fazer e os dias de nevoeiro

Para além do confuso (e novo?) papel, viver como mulher é, na maior parte dos dias, o equivalente a caminhar num dia de nevoeiro. 

Passamos a vida a ouvir comentários contraditórios: "Tens de casar e ter filhos" vs. "tens de ser independente e dona da tua vida", "tens de estabilizar um dia destes e comprar casa" vs. "tens de viver o momento, pegar na tua mala e viajar mundo fora", "tens de ser recatada e valorizares-te" vs. "tens de fazer o que quiseres com o teu corpo e mente".

Isto deixa-nos tão confusas, que fica difícil perceber o que "fazer" com a caixa do "fazer". E pior, chegamos a pensar que é possível fazer tudo.

Acreditamos que podemos ser e fazer tudo para todos.

E no meio desta incerteza, lá vamos caminhando no meio do nevoeiro espesso, tentando escutar o coração sem deixar de ter a cabeça no lugar. Mas há dias em que não conseguimos deixar de pensar: fazemos o que fazemos porque queremos, porque os outros querem ou para contrariar o que esses outros querem? 

E os homens desta geração?

Para além das mulheres, também os homens estão a passar pelo seu processo de mudança.

Muitos deles também não sabem bem o que ser e fazer, foram educados de uma maneira e lidam agora com uma realidade diferente. 

A tudo isto acresce um quotidiano acelerado, uma fabricação do que é a felicidade (promovida pelas redes sociais) e a banalização do efémero em prol de uma maior individualidade. E tudo isto afeta as relações que temos uns com os outros. Porque estamos permanentemente conectados e, ao mesmo tempo, desconectados do que realmente importa.

Queremos ser ouvidos, sentirmos-nos válidos e dar um real sentido à vida. Mas fazemos-lo, muitas vezes, da forma errada. Lutamos em vez de cooperar, optamos pela individualidade ao invés da entrega, ocultamos o que queremos dizer em emojis porque custa comunicar cara-a-cara. 

E porquê? Para quê? No final de contas, todos queremos o mesmo: amar, ser amados e viver vidas felizes e com propósito.

Vivemos tempos incríveis

Apesar de tudo, afirmo que vivemos tempos incríveis! Com oportunidades impensáveis há anos atrás. 

E acredito que, a seu tempo, iremos conseguir definir com amorosidade e consciência o que ser e fazer. Que melhoraremos as nossas relações, porque iremos perceber que a comunicação e a entrega é a única solução. E que conseguiremos cooperar de forma mais harmoniosa, não numa sociedade patriacal nem matriacal mas sim yin-yan (equilibrada entre os dois)!

Talvez esta visão do nosso futuro seja romântica, but well dizem que a esperança é a última a morrer.

Photo by Ariel Lustre on Unsplash

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